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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ISTO NÃO É UM FILME

Irã, 2010
Direção: Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb

O cineasta iraniano que dirigiu filmes excelentes como "O Círculo" e "Fora de Jogo", não se conteve com a condenação do governo iraniano que lhe submeteu uma pena desumana. Alguns meses atrás ele foi preso por "exercer atividades contra a segurança nacional e propaganda contra o regime". Após grande repercussão internacional, Panahi foi liberado para cumprir sua sentença em prisão domiciliar, sentença esta que além dos 6 anos de privação, inclui 20 anos sem poder escrever roteiros, dirigir filmes e conceder entrevistas.

O documentário mostra um dia na vida de Panahi, que entediado, começa a filmar a esmo ideias que lhe vêem a cabeça no espaço restrito de seu apartamento. Como declaradamente não entende nada de técnica, ele chama o documentarista Mojtaba para lhe auxiliar na empreitada. Ele tenta por exemplo contar a história do filme em que estava trabalhando e que teve que ser engavetado por motivos óbvios. Com fita crepe, faz marcações no chão da sala tentando simular as locações, como o quarto da jovem protagonista. Ele se esforça, mas sua frustração é nítida e não consegue finalizar. Naquele momento é possível sentir toda sua angústia por estar de mãos atadas e não poder exercer sua paixão.

Panahi sabe que aquilo pode ser tedioso para a audiência e muda de assunto. Resolve analisar filmes passados que realizou e dá uma aula de direção ao revelar técnicas utilizadas com seus atores.

Mesmo sendo algo despretensioso e sem roteiro algum, os Deuses do cinema agraciam Panahi com a chegada do zelador que vai buscar seu lixo, o que proporciona uma sequência final que com certeza não seria tão boa se tivesse sido planejada. Triste, engraçada e emocionante.

Apenas pelo mote o filme já se basta. Um governo tirânico onde a maior preocupação é o desenvolvimento da bomba atômica não deve ser respeitado. Um país com leis da época da pedra, que humilha suas mulheres e priva seus artistas de se expressarem deve ser rejeitado mundialmente. Espero que você saia logo dessa Panahi e possamos enfim, desfrutar novamente de sua bela arte. Força!

Obs: O filme saiu do país por um pendrive. E mais uma vez os Deuses da Sétima Arte exerceram seu poder quando os censores não conferiram seu conteúdo. Obrigado.





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

BOLLYWOOD: A MAIOR HISTÓRIA DE AMOR DE TODOS OS TEMPOS

Índia, 2011
Direção: Rakeysh Omprakash Mehra e Jeff Zimbalist

O documentário conta a história da Índia através de filmes realizados pela maior indústria cinematográfica do mundo: Bollywood.

Utilizando-se de fragmentos de filmes de várias épocas e com depoimentos de diretores, atores e roteiristas, o documentário traça um panorama desta grandiosa indústria de mais de 70 anos.

Dividido em 4 partes: independência, escapismo, o sistema e nova ordem, os diretores nos mostram as mudanças ocorridas no cinema indiano de acordo com cada época. Mudanças estas que sempre mantiveram a mesma base para tratar de diferentes momentos históricos desta jovem democracia: a música e a dança.

Podemos conferir então toda exuberência da cultura riquíssima deste país. Bollywood já provou ser capaz de realizar grandes e espetaculares produções que não deixam nada a dever a matriz americana. A grande e visível diferença está nos roteiros e atuações "over the top", beirando o cafona e o brega mesmo, mas é disso que o povo de lá gosta, histórias de amor com finais felizes e no meio uma briga entre mocinho e bandido. É sempre assim.

Alguns atores são tratados pela população como verdadeiros deuses. Deuses de Bollywood. Eu particularmente adoro a cultura indiana. Sua música, dança, culinária, vestimentas belas e super coloridas e o modo como se relacionam com a religião. Para encher os olhos e a alma mediante a alegria deste povo, apesar de tanta miséria. O tal escapismo. Muito bacana.





quarta-feira, 2 de novembro de 2011

NOVO MUNDO

Japão/China/Malásia, 2011
Direção: Lim Kah Wai

Coco é uma jovem patricinha mimada de Pequim. Ela enfia na cabeça que quer passar o natal em Osaka, no Japão, mas não contava que teria de ir sozinha, uma vez que planejava ir com o namorado. E lá vai Coco para Osaka.

Chegando lá, tudo dá errado. Achava que o hotel em que ficaria era 5 estrelas, cheio de mordomias, mas o que acontece é o oposto. Ela encontra um Japão em plena recessão e uma pobreza que até então desconhecia. Descobre também uma China até então invisível para si ao deparar-se com imigrantes chineses que foram trabalhar por lá quando seu país não desfrutava da bonança atual.

Aos poucos ela envolve-se com estes personagens e acontece uma troca de valores deixando de ser simplesmente uma patricinha fútil. Politicamente correto e previsível. Bonitinho, mas ordinário.

THE DAY HE ARRIVES

Coréia do Sul, 2011
Direção: Hong Sangsoo

Vencedor da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2010 com "HA HA HA", já comentado por aqui, Sangsoo é chamado pela crítica como o Woody Allen ou Eric Rohmer asiático e ele nunca escondeu sua influência por estes mestres.

Em "The Day He Arrives", Sungjoon, um ex-diretor de cinema vai a Seul para reencontrar seu melhor amigo. Sung mora atualmente no interior lecionando e está dando um tempo das filmagens.

Em suas perambulações por Seul, Sung cruza vários personagens como jovens estudantes de cinema que admiram seu trabalho, uma atriz e conhece também novas pessoas apresentadas por seu amigo. Com muitos destes personagens ele senta à mesa, onde bebem e filososofam sobre a vida. E nestas conversas deliciosas Sangsoo demonstra toda sua habilidade e controle sobre a narrativa. Uma divertida crônica sobre a solidão.

Como disse um crítico, acho que foi o Cassio Starling Carlos da Folha: Sangsoo está deixando de ser discípulo para tornar-se mestre. Concordo plenamente.





domingo, 30 de outubro de 2011

KAIDAN HORROR CLASSICS

Japão, 2010
Direção: Masayuki Ochiai, Shinya Tsukamoto, Sang-Il Lee e Hirokazu Kore-Eda

Estava super ansioso para conferir "Kaidan" e talvez por isso tenha me decepcionado tanto. Achava que iria me divertir horrores, com o perdão do trocadilho, pois poder conferir quatro histórias de terror japonês no telão durante a Mostra parecia ser algo muito bacana. A ansiedade tornou-se ainda maior quando descobri que um dos diretores é Kore-Eda, de filmes que adorei como "Depois da Vida", "Ninguém Pode Saber" e "Air Doll".

Os quatro diretores adaptaram histórias de autores da literatura nipônica, entre eles, o mestre Yasunari Kawabata de clássicos como "A Casa das Belas Adormecidas". Parecia então ser um programaço para um Sábado a noite. Só parecia.

Não existe horror nas histórias. Não tem nem um sustinho, nada horripilante, a não ser o nariz de quinze centímetros do protagonista da segunda história. São contos surreais e fantásticos, mas não assustadores como promete a maldita sinopse.

A primeira história é sobre um homem obcecado pelo braço de uma jovem que o pede emprestado por uma noite. A segunda é sobre um monge narigudo que fugiu de sua terra natal por conta do preconceito que sofria devido sua anomalia. A terceira sobre duas irmãs, que está muito mais para um drama emocional do que um conto de terror e a última, de Kore-Eda, a melhorzinha, é sobre um casal que recebe visitas de seu filho morto.

Se não bastasse, as histórias são longas, com mais de 40 minutos cada. Se ainda fossem boas ... De horropilante mesmo, só o casal de nipônicas roncando ao meu lado. Infelizmente, uma decepção.

(Pelo episódio de Kore-Eda)



Programe-se:
31/10 - Cine Livraria Cultura 2 - 16h
01/11 - Cinemateca - 17h40

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

AMOR DEBAIXO D´ÁGUA

Japão/Alemanha, 2011
Direção: Shinji Imaoka

O que seria um "pink musical"? No caso desta bobajeira nipônica, trata-se de um musical trash erótico. O gênero é bastante popular no Japão onde é conhecido como "pinku eiga" ou seja, uma pornografia leve.

O filme conta a história de Asuka, mulher de 30 e poucos anos que está noiva de seu chefe. Um belo dia ela vê um "Kappa", criatura mitíca japonesa de forma humana porém com bico e casco de tartaruga. A criatura em si vem a ser um antigo colega de escola que era apaixonado por ela e que morreu afogado quando tinha 17 anos e que reencarnou em forma de Kappa.

Ele volta para salvá-la do Deus da morte, interpretado por uma figura cômica de vestido colorido com cigarro na boca.

O filme é trash total, desde o figurino as partes musicais medonhas. É tão ridículo que torna-se engraçado. Apesar de debochado ao extremo, proporciona um bom tanto de risadas.

Destaque para a pérola anal e para a luta de sumô entre Asuka e o Deus da Morte. Destaque também para a fotografia de Christopher Doyle, parceiro de Wong Kar Wai em filmes como "Amor a Flor da Pele" e "2046".

Um musical trash, erótico e mítico. Bobagem pura, mas engraçada.





quinta-feira, 21 de julho de 2011

O QUE RESTA DO TEMPO


Bélgica/França/Itália/Reino Unido, 2009
Direção: Elia Suleiman

Uma visão diferente e lúdica da guerra eterna entre israelenses e arábes. Neste belo filme, Elia Suleiman traz um roteiro baseado no diário de seu pai que foi combatente da resistência Palestina e nas cartas de sua mãe para os parentes expatriados. O filme é praticamente autobiográfico e o diretor faz o papel dele mesmo na parte final da película.

Em 4 tempos, Suleiman recria episódios que marcaram sua vida, partindo de 1948 até os dias atuais. "O que Resta do Tempo" reconstitui de maneira primorosa o cotidiano dos chamados árabes-israelenses. Aqueles poucos que resolveram permanecer em sua terra natal e consequentemente passaram a viver como minoria.

Suleiman detém um humor ácido e inteligente. Brinca com a desgraça de seu povo e sua terra fadada ao desaparecimento. A convivência entre árabes e israelenses neste pedacinho de terra não chega a ser pacífica, mas os que resistem, tentam ignorar que vivem em um local rodeado de soldados que os querem fora dali.

Três cenas chamam muito a atenção. Um arábe fala ao celular caminhando pra lá e pra cá com um tanque de guerra na sua mira. Soldados israelenses param em frente a uma discoteca ordenando o toque de recolher, prontamente ignorado pelos frequentadores e o salto do diretor sob o muro da separação. Apesar da desgraça da realidade, Suleiman consegue captar através de seu olhar delicado, um humor muito inteligente.

Uma visão sincera de quem viveu o terror e sonha com o fim desta absurda guerra que parece nunca ter fim. Acima da média.





quarta-feira, 3 de novembro de 2010

TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

Tailândia/Reino Unido/França/Alemanha/Espanha/Holanda, 2010
Direção: Apichatpong Weerasethakul

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Tio Boonmee" será o filme mais procurado e badalado por todos os festivais em que passar. Por aqui não poderia ser diferente, e como ainda não há data de estreia prevista, não poderia perder a oportunidade de ver o filme mais comentado do ano.

O filme é totalmente budista. Logo, antes de tirar conclusões ocidentais, procure saber um pouco mais sobre esta religião, que eu particularmente, considero a mais sensata e nobre de todas. Somente assim você poderá tentar compreender o filme.

O filme é exótico e instigante. Ele cria uma atmosfera de suspense que envolve e acima de tudo, provoca o espectador. A cena da princesa na cachoeira, é uma das mais belas e emblemáticas do cinema recente. Esta cena também surge para explicar o que teria ocorrido ao filho de Boonmee.

No budismo, a morte não é um tabu, é apenas uma passagem. Nessa religião, todo ser vivo merece o mesmo respeito. Um peixe, um macaco e eu, possuímos o mesmo valor neste mundo. Acreditam em reencarnação, logo, pense 2 vezes antes de pisar naquela formiga, ela pode ter sido um parente seu. Sem ironia, sem brincadeiras, o budismo é assim.

Tio Boonmee acredita estar doente por causa de seu karma, por ele ter matado muitas pessoas e animais.

No final, o ápice. Tia e sobrinho ao ajudarem Boonmee sem questionamentos e de coração aberto, atingiram o Nirvana, a pureza máxima de espírito que independe da matéria. A alma, alimenta-se de bondade. Tornaram-se seres superiores.

E o céu ... bem, este é superestimado. Não existe nada lá. Ótimo filme merecedor de toda badalação. Infelizmente, incompreendido pela sociedade ocidental, materialista ao extremo.





UMA CRIANÇA ABANDONADA À BEIRA DO RIO



Uzbequistão, 2010
Direção: Sabir Nazarmukhamedov

Este filme é daquelas preciosidades que vira e mexe nos deparamos na Mostra, isto é, se você for corajoso para descobrir novas cinematografias e explorar novos olhares sem medo de ser feliz. Sem recomendações, críticas ou referências, contando apenas com a boa sorte. As vezes nos damos mal, mas quando o filme é bom, não há preço que pague.

Três amigos revivem o passado através de longas conversas. Contemplam a natureza exótica e bela do local em que vivem e divagam sobre a vida. Um filme sobre valores, família e o cotidiano do que realmente importa em nossa passagem por este mundo.

O filme é pura poesia, logo, a fantasia não poderia faltar. O protagonista conversa com bruxas, anjos e mariposas. Aliás, ele próprio, é o anjo deste poético e belo filme. Lento sim, mas na medida e no tempo certo. Lindo!

03/11 - Matilha Cultural - 16h

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

HISTÓRIA DE KYOTO

Japão, 2010
Direção: Yoji Yamada

Com a colaboração de jovens cineastas, Yoji Yamada conta a história de um triângulo amoroso. O filme foi rodado na cidade cenográfica de Uzumasa, local onde foram filmados clássicos do cinema nipônico como "Rashomon", de Kurosawa.
Além do triângulo amoroso, o filme fala da tradição japonesa dos pais quererem que seus filhos toquem seus negócios. Essa parte que aborda a tradição, ou melhor, essa verdadeira obsessão oriental de que todo filho deve trabalhar com o pai, é contada através de depoimentos, como se fosse um documentário.
Na parte amorosa temos um candidato a comediante que namora uma bibliotecária. Eis que surge um professor que se apaixona loucamente pela bibliotecária, mas o amor não é um jogo de uma lado só, e não adianta nada o outro fazer de tudo, se a pessoa amada não corresponde.
O roteiro é muito bem tramado, os atores ótimos e direção idem. Ainda tem aquele resquício de comédia meio pastelão em alguns momentos que os japoneses adoram e o papel de palhaço aqui fica com o professor desajeitado e atrapalhado.
O filme é leve, divertido e delicioso. E ainda comove. Muito bonito.


29/10 - Cultura 1 - 20h40
30/10 - Pompéia 1 - 20h10
31/10 - Unibanco Augusta - 15h50